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08 fevereiro 2013

Teu rótulo até confunde. Assim de canto de olho. Tua textura não disfarça. É massa industrial moldada a mão. Teu sabor confirma. É glúten enriquecido em vitamina. E a gente não se engana, mas paga caro por bolacha de maisena em embalagem de biscoito fino.

17 setembro 2012

Ainda ontem


Que ainda ontem as lembranças não chegavam. E o sorvete de coco tinha mais sabor da fruta que da saudade. O pôr do sol moldava os rostos que eu não conhecia e o vento liberava todos os medos que eu fingia. Que ainda ontem as risadas não doíam. E os passos seguiam mais a intuição que a vontade. O suor molhava os sonhos que eu teria e a areia escondia as dúvidas que eu distraía. Que ainda ontem o cansaço não incomodava. E a maresia tinha mais toque de leveza do que intimidade. As redes pescavam os gritos que não eu não daria e o céu brilhava as vozes que eu mentia. Que ainda ontem as memórias não ousavam. E o mar balançava mais emoção do que naturalidade. As bolhas de sabão embrulhavam os sons que eu não sabia e os pássaros cantavam as lágrimas que eu perdia. Que ainda ontem o sono não escapava.  E as ondas lavavam mais ilusão do que sensibilidade. A brisa afogava as certezas que me perseguiam e o cachorro lambia as dores que eu escondia. Que ainda ontem o coração não falhava.   

08 setembro 2012

História minha


São distorções, borrões, rascunhos. Numa tigela não muito funda, um pouco do que sou se mistura agora com o que eu teria sido e com o que ficou perdido em um tempo que eu não lembro mais. Um pouco também do vi e do que ouvi. Em vozes que eu já não reconheço. Histórias que eu queria contar como minhas. Porque tudo parece mais claro de fora. Mais limpo. A dificuldade que sinto de enxergar de muito perto me leva a lugares que sempre desprezei. E uma vez neles, não sobram muitas saídas. Talvez um mergulho nas profundezas de mim seja a questão. Ou a ilusão que resta para libertar tudo aquilo que eu não controlo mais. É difícil saber ao certo o que encontrar em caminhos tortuosos, moldados com lama, dúvida e fantasia e decorados por uma devastação intensa que beira a loucura. Mais difícil é precisar percorrê-los um dia para saber como termina a história que um dia foi minha.

21 agosto 2012

17 agosto 2012

Verde dos olhos



Entre a pressa de olhares corridos e o exasperar incontrolável dos sentidos, confundindo timidez com indiferença, passos com rodopios, frases de tempo com declarações, existe um intervalo de tempo curto, mas controlável, em que se pode enforcar os pensamentos mais obscuros e dobrá-los à razão em lugar do desejo. É nesse intervalo que Emília se encontra nesse momento. Ela sabe que trocar o caminho principal por um atalho desconhecido e misteriosamente perigoso agora é suicídio premeditado, de todos os anseios que já conseguiu dominar. E que dessa vez não suportaria o frio das noites intensas de inverno, porque suas crenças não podem mais aquecer a carne e a ferida expostas em museus da sua própria consciência. Mas a tentação. Ah... A tentação de ver uma substituição tal como deve ser. E a fome de vingança. A sede do novo. É quase como se não existisse escolha.  Emília tem pouco tempo antes de suspirar o estrago. Mas se vai mesmo optar pela fantasia, que suas futuras dores de cabeça não culpem o brilho de seus olhos, mas o verde dos olhos que os fazem brilhar.

10 agosto 2012

Atalhos


E assim vamos fazendo as substituições. A margarina pelo requeijão, o café pelo suco. E vamos substituindo também os caminhos principais pelos atalhos. A coragem pela desconfiança.  A alegria pelo cansaço. E então nos deparamos com mais escolhas saídas da necessidade em lugar da vontade. E vamos esquecendo sabores, sensações, situações. Abraçamos as causas mais aparentes. Acreditando, talvez, que a prudência nos faça menos ofegantes. Assim vamos substituindo também os sorrisos espontâneos pelos menos verdadeiros. A esperança pela paciência. A espera pelo remédio. A dor pela vodca. E vamos substituindo as roupas, os calçados, os perfumes, as fraquezas. Pessoas, olhares, sentimentos. Um sonho por outro sonho. E acordamos com novas razões e mais uma pilha de substituições, desejando que alguma coisa, finalmente, faça sentido. E então chega a hora de nos substituírmos por nós mesmos.  

03 junho 2012

Dança em mim





Das poucas coisas que me validam, há certamente uma que se desprende de mim com tamanha leveza ao mesmo tempo que se prende a mim de maneira tal que não a posso deixar. Vai e volta cada vez mais forte, em momentos que eu por vontade não quero, mas por falta de escolha, preciso. Que desde que encontrei no um, dois, três, cinco, seis, sete, algo que não sabia existir em mim, perdi a parte que talvez me fizesse triste de não ter mais jeito. Não que esse encontro tenha me projetado a alegria de estampas e sorrisos. Talvez seja até imperceptível na face. Mas a verdade é que uma pequena mudança, discreta, tímida, porém contínua, lá de dentro, por sob a pele, por sob os monstros que eu reconhecia maior em cada noite mal dormida, mudou para sempre a forma como eu enxergava os lados. É como se um leve sopro me afastasse de um sono inquieto, nem que pelo tempo de uma música. Mas os efeitos, geralmente, perduram  mais, em fragmentos no dia seguinte, e, quem sabe, no outro ainda, porque, na maior parte do tempo, são meus pés cansados que fazem meu dia mais leve. Que eu nunca mais esqueça que, mesmo nos dias em que essa chuva fina insista em borrar o meu caminho, mesmo nesses dias, eu tenho a dança em mim.

21 maio 2012

Frestas de Transparência


Sentia falta de falar. Não só de escrever. De ouvir as palavras saírem da boca sem pensar antes no que dizer. Sem intencionar cada letra, vírgula e ponto às regras. Sem sinônimos para as repetições. Sem norma. Priorizar o improviso à estética. Falar como saísse, como viesse. Frases incompletas, incorretas, insensatas. Talvez acreditando que a rapidez do raciocínio esclarecesse sentidos menos nobres e mais inteiros. Fechando, às vezes, lacunas de verdades e, outras vezes, abrindo frestas de transparência. Deixando à mostra a dor, a raiva, a imperfeição, a calma, a alma, a adoração, a vontade, a saudade, a beleza, a dúvida, a leveza. Falar por falar, por querer, por saber. Falar e ser ouvida. Sem obrigações, nem regras, nem normas, nem imposições. Falar e ouvir. E falar mais. E falar até ouvir.

21 abril 2012

Tempos Inquietos

E então chegou a hora da faxina. Do descarte. Da limpeza profunda. Entre presentes, flores e fotografias, eu escolho minha vida de volta, a de antes, a dos sonhos e das danças. Eu escolho a felicidade tímida e constante em vez dos rompantes de risos e estampas de alegria que me falsificam. Chegou a hora do desentulhar, desencavar e guardar somente aquilo que não me aborrece. Eu já cutuquei a ferida e agora a espero fechar, sem pressa, sem intervenções. Em seu tempo, não mais no meu, porque eu já sei como acaba. E dessa vez as folhas secas do outono não me recolhem. Mas é o inverno mais frio que o de costume que me desencoraja. Eu atravesso tempos inquietos. De dúvidas, de questionamentos, de respostas que não mais me convencem, mas acabam servindo. Talvez por preguiça. Talvez por descrédito. Se não fosse esse inverno mais longo que o de costume, eu sei que eu já teria florido mais rápido. E já seria mar em fim de tarde. A vida dá voltas e a amanha pode ser a minha vez.

02 março 2012

Flores de Abril



Não é saudade. É só a lembrança se deixando convidar por sensações encaixotadas pela prudência. Às vezes, no toque de uma dança, nos pingos fortes da chuva, no sorriso de um desconhecido, no cheiro que me invade por alguns segundos e se vai quando a porta abre e o elevador esvazia no andar seguinte. Sentidos que acendem sua presença ainda ativa, mas escondida em algum canto reminiscente da alma.  E por alguns instantes, o pensamento se desvia das ações do momento e esbarra nos toques firmes e vigorosos das mãos, das vezes que a gente debochava do despertador aos berros e fazia hora extra na cama ou afastava a atenção da tela e a metia entre as pernas entrelaçadas no cinema. De quando a gente ria ensopado, tentando apertar um lugar debaixo do guarda-chuva. E as bobagens sussurradas entre taças de vinho tinto e músicas de vitrola. E o ardor do incenso queimando a sala. Das lembranças de um outono que despejava flores de abril na janela do meu quarto e ventava cenários de recomeço, não guardo a tristeza disfarçada de melancolia e nem me oponho à saudade. Mas não evito mais as memórias protegendo da vida as sobras de tempos que se perderam. Que agora fragmentam o meu dia e deságuam a minha noite.  E, quando me tomarem de novo, é provável que um sorriso tímido se forme e talvez algumas lágrimas floresçam, mais por costume do que por qualquer outra coisa.