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30 setembro 2011

Mais uma vez a memória escolhendo os momentos mais importunos para mostrar que está falhando. Que se não tratar piora. E eu pergunto: que diferença faz agora, se não há mais para  lembrar do que tenho pra esquecer?

28 setembro 2011

Hoje eu encarei o espelho e confessei diante de mim que ando lendo pouco. E fiz isso em voz alta pra alfinetar a minha reação. Não que esperava espanto ou indignação. Só não contava com o descaso. Era eu, de verdade, enxergando que preciso olhar mais pra mim.

27 setembro 2011

A vida dos outros

Eu sei que às terças-feiras o Marcos vai para o Espetiscos. Que gosta de comer queijo coalho tomando coca-cola. Que carne seca só desce com chope. Hoje o Marcos não vai tomar chope. Ele tá fazendo tratamento com antibiótico. Eu não sei o que o Marcos tem. Tomara que não seja grave. Coitado. Não vai beber bem hoje que terminou com a namorada. Ou foi a namorada que terminou com ele? Isso eu não tenho como saber. Só que ele está solteiro. Alguns amigos dele gostaram. Outros lamentaram. Teve uma moça que se mostrou muito solidária. Eu acho que ela é a fim do Marcos. O namoro dele durou cinco anos e eu acompanhei os últimos dois. É muito bonita a (ex) namorada dele. Vanessa. Eu gostava de ver as fotos do Marcos e da Vanessa. Ela sempre usava um cabelo diferente. Em Paris, loira tipo atriz de cinema. Em Ubatuba, o castanho escuro cobria as madeixas três palmos menores. Das últimas fotos, castanho claro com luzes acobreadas combinando com o vestido que usou no casamento do irmão do meio do Marcos. Eu achei que o Marcos ia se casar com a Vanessa. Ele era louco por ela. Fazia declarações, mandava flores, presentes. Um dia ele a surpreendeu com uma chuva de pétalas de rosas quando ela saía do trabalho. Eu achei meio brega. A Vanessa também não gostou muito, mas ela foi educada. Disse que ficou um pouco sem graça porque estava na frente do chefe, mas que foi uma surpresa bonita. Simpática a Vanessa. Ela sabia lidar com os exageros do Marcos. No fundo, ele é gente muito boa. Só briga quando fala de futebol. O Marcos gosta de zoar com os amigos quando o time deles perde. O que eu acho mais engraçado é que o Marcos gosta mais de irritar os outros do que comemorar quando o time dele ganha. Eu conheci o Marcos na praça de alimentação do Shopping Center perto da minha casa, há dois anos. Eu carregava a bandeja do lanche, batatas fritas e refrigerante quando avistei uma mesa vaga. Acelerei o passo e a bolsa escorregou do ombro. A bandeja balançou e o copo caiu. O Marcos passava perto. Ele foi tão rápido que fiquei com metade da coca-cola. O Marcos disse que como agradecimento eu tinha que convidá-lo a se sentar comigo. Não foi uma cantada. Ele também procurava uma mesa para almoçar. No final da conversa, ele perguntou o meu nome. No dia seguinte, pediu minha amizade no facebook. Nunca se sabe quando vamos precisar de ajuda com o refrigerante. Foi a última vez que eu falei com o Marcos.
Ah.. essa curiosidade ainda me ataca o fígado.

26 setembro 2011

Silêncio desconfortante

Vez por outra interrompe o pensamento uma lembrança tão feroz que é capaz de reproduzir não apenas as palavras, mas o sincronismo delas com as expressões. É tarde. O desconforto no olhar. Não é fácil. A pausa entrecortada por uma respiração mais brusca e menos corajosa. Desencontro. A serenidade em busca de um termo mais elegante que o óbvio. Ainda não acabou. O silêncio tentando convencer a razão. Não acabou. O silêncio.