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28 dezembro 2011

Por hoje

O sol quando se põe dá cor à saudade. Tom à esperança. É morte anunciada. Da certeza do renascer. Da noite de cura. Da chance de outra manhã. Nunca vi iluminação mais bela que a do pôr do sol. Mas o principezinho de Exupéry tem razão: quando se está triste demais, a gente gosta do pôr do sol. E eu também vi o sol se pôr 43 vezes num único dia.  

Canto das Lamentações

E então eu escrevo e evito rompantes desnecessários. Daqueles que me fariam arrependida e inchariam os  olhos depois de uma noite longa e mal dormida. De quando eu ligava e despejava as mágoas e lamentações que eu, sozinha, não podia controlar. E dava forma e face a surtos e delírios e expunha o que no fundo eu queria esquecer. Com a palavra escrita é diferente. Ela soa sempre menos ofensiva que o tom da minha voz, ainda que o que eu escreva seja mais tenso e intenso do que o que eu fale, porque sempre fui melhor com as letras. Por isso hoje eu escrevo. Porque eu estou triste demais para ligar. Para brigar. Para lamentar ou esquecer. E mais triste ainda para terminar esse parágrafo.

25 dezembro 2011

Manhã de Natal

E então chegou o Natal na minha casa e eu não consegui descer do quarto para a ceia. As risadas vindas da sala de estar me ofendiam. O cheiro de pernil assado que se alastrava por toda a cozinha, invadia a sala, subia as escadas, se infiltrava pelas frestas da porta e chegava a minha cama me enjoava. Até o aroma suave da mousse de maracujá, especialidade da minha mãe, que, de vez em quando, se sobressaía ao forte cheiro do pernil e tomava conta de todo o meu quarto, me desencorajava. E os presentes abertos, os papéis rasgados e picotados pelos cachorros, as roupas bonitas, a toalha vermelha, as velas douradas, as piadas recontadas todos os anos, os cabelos arrumados, as unhas feitas, a alegria estampada. Todos os lugares-comuns da época me irritavam. Mas o som de Noite Feliz tocada no piano, sempre às 11h30 de todos os 25 de dezembro, substituindo o CD da Simone, era diferente. Ele me fazia lembrar das histórias que minha mãe contava sobre o Papai Noel. Ela aproveitava a intensidade do sono infantil, que nunca me deixava ficar acordada até tarde, nem em dia de receber presente, para reforçar a crença no bom velhinho. Contava que à meia-noite chegava a ver as botas e parte da roupa vermelha do Papai Noel saindo de casa. E que ele era tão rápido que não dava tempo de mais nada. Nesse Natal, eu que vi suas botas. Era meia noite e eu tentava dormir. As orações em volta da ceia na sala de estar quebravam o silêncio entre mim e aquela figura desconhecida que invadia o meu quarto e me observava com ternura. Eu queria saber como ele tinha aberto a porta que eu tranquei com a única chave que a abria e deixei no criado mudo ao lado direito da minha cama, onde lá ainda permanecia, mas antes que pudesse questioná-lo, ele começou a falar. Apresentou-se como Papai Noel, sem ao menos possuir qualquer traço que lembrasse o personagem que eu amei durante tantos anos da minha infância, a não ser pelos longos cabelos brancos. Com voz suave, mas firme, o senhor magro, de gestos contidos, calça de linho marrom, botas pretas, camisa pólo branca e suspensório, meu Deus, ainda existe suspensório, me desejou Feliz Natal. Pediu desculpas por não ter podido trazer presente nesse ano. Aliás, nesse e nos anos anteriores em que eu ganhei muitos presentes de familiares, amigos e amigos-secretos, mas dele mesmo nenhum. Eu quis rir, lembro que cheguei a esboçar um sorriso, mas resisti. Ele continuou se desculpando. Alegou que não foi descuido. Só não conseguia encontrar presente para mim. Tentou pensar em algo que eu pudesse gostar e que me fosse útil, mas nada lhe ocorreu nesses anos todos em que eu passei a resistir ao Natal. Então teve a ideia de vir pessoalmente porque era tempo de eu mesma me presentear. Não se tratava de roupa nova ou perfume caro. Era preciso, disse o senhor, que parasse de esperar a vida que eu queria e viver a que eu tinha. Pra que nela coubesse não os sonhos que eu já sabia impossíveis, mas aqueles que deles soubesse adaptar todas e quantas  vezes a necessidade exigisse mudanças, porque eles me trariam algo o que nunca imaginei, pois nunca havia ousado sonhar mais do que eu quis. Só assim os presentes, os que valem a pena, chegariam mais fáceis. Foi então que as fortes batidas na porta do quarto me acordaram para a manhã de Natal mais colorida que já tinha sentido em toda a minha vida.

23 dezembro 2011

Acho muito curiosa essa necessidade que as pessoas têm de dar satisfação de suas vidas, sem que elas sejam cobradas.

22 dezembro 2011

Fibra e fronha

E quando a cabeça pesa demais e eu não tenho fôlego para correr tudo o que preciso, são as histórias das cartas anônimas, mais tristes que a lembrança, que distraem. Eu busco mesmo os filmes com finais previsíveis porque Melancolia me deixa estática tal e tão qual. E meus tênis não suportariam percorrer a distância que me separa da parte mais digna de mim, agora perdida entre olhos inchados de vinho tinto e pés exautos de desconfiança. Falta fé. E também faltam fibra e fronhas secas todas as noites em que meu sono é atropelado por dúvidas. E a vontade de gritar grita. Alto. Mas não sai de dentro de mim ou para fora de mim. E se converte em suspiros e soluços mais comportados do que o desejo. Amanhã compro tênis mais resistentes. E então vou poder errar de caminho quantas vezes a vista fraquejar e a febre aumentar, sem mesmo precisar sair de casa.

15 dezembro 2011

Chega. Agora chega. E eu de novo repetindo em silêncio palavras que elegi na tentativa descarada da ilusão. Como se o tom de promessa, empenhado com esforço, pudesse mesmo evitar que o estômago embrulhasse de raiva. E todas as vezes em que acreditei que bastava, de verdade, para depois me comprometer ainda mais em lágimas de redenção. Eu sei como é humilhante descer mais degraus dos que os que eu subi e como cada passo para cima, depois de tantas quedas, sai sempre menos corajoso e mais preguiçoso. Chega. E que eu possa voltar aqui e dizer: que hoje é a minha vez.

13 dezembro 2011

Espero por algo que está para acontecer. Não é coisa ruim, mas, ainda assim, não devo gostar. Eu sinto isso forte quando eu vou dormir e todas as vezes em que acordo. É a sensação familiar de me afastar quando todo o mundo se encontra. E num papo com amigos, numa cena dramática da novela, no estúdio de fotografia, eu me noto sorrindo feliz de não ter explicação nem intenção. E quando a noite chega e não permite disfarce, lembro a primeira vez que perdi meu lugar no mundo e o quanto custou recuperar meu espaço. E tudo o que ainda pago por ele. E de novo a sensação que não se concretiza e nem se desfaz, me avisa que estou para perder, mais uma vez, o meu lugar.

30 novembro 2011

Silhueta

Que a dança não me alimenta como antes e a peça que eu gostava saiu de cartaz. Eu ainda respingo dúvidas de construir um caminho que eu quero por vontade. Mas que a vida segue cheirando à tinta fresca e isso é o que sacia nesse momento. E se não for por aí, eu mudo de novo. Só que dessa vez com um pouco mais de fome e menos de exagero.

10 novembro 2011

Cócegas

Era mais fácil quando a amizade não tinha intenção de ficar. E a gente falava de coisas sérias e de bobagens, enquanto a lua fazia hora extra. A atenção se desviava da conversa e se metia entre os dedos da mão. As risadas demoravam mais que a pausa. Eu bebia mais que comia e menos que chorava. E não tinha pressa. Era mais fácil quando nem ligava porque não estaria. E pensava que eu não precisava mais do que eu tinha. Sentia a felicidade escorregar pelos dedos e fazer cócegas na barriga, o vidro embaçado escondia minha fantasia.

29 outubro 2011

Lado de fora

Sonhei de novo aquele sonho que eu não gosto. Que me acorda ofegante e doída e escurece a manhã de domingo. E as vozes que eu, acordada, não paro de ouvir, se juntam às risadas da casa vizinha para me atormentar. O que eu vi, imaginei, sonhei, precisei. Tudo me alcança fácil agora. E eu pensei mesmo que pudesse evitar. Que afastar resolveria. Tentei de verdade porque sei que eu já fui melhor. E  que não participo mais desse sonho. Nem como expectadora que virei. Dessa vez escolho o lado de fora. E não se fala mais nisso.

26 outubro 2011

Desconstrução

Eu não tenho a minha cara. Assim como minhas roupas, a maquiagem, o corpo, o cabelo, o sorriso, o espelho. Há pontes que não se encaixam em mim, mas foram forçadas a se ajustar, me fazendo mais sombra que objeto. E o material que me formou ficou tão distorcido que mal consigo reconhecer meu próprio esboço. Mas dele já sei retirar o que não me cabe mais. E é assim, me desconstruindo de crenças que já não convencem, que vou me construindo. Embaraçosamente devagar. Mas a cada manhã um novo pequeno pedaço desfeito se completa em mim.

21 outubro 2011

Guache

Me perdi num sonho que eu pintei de tinta guache e reforcei com canetinha. Que larguei numa gaveta qualquer enquanto embriagava a coragem de vinho tinto. Que afastei em troca de delírio. Que deixei desbotar e manchar a escrivaninha. Que eu tentei limpar, mas borrei ainda mais de tinta. Que agora colore o papel de parede da casa vizinha.

19 outubro 2011

Desespero. Uma palavra que tem se encaixado com frequencia em meus textos. Talvez porque esteja participando mais ativamente da minha vida. Em breve, mais um texto incontrolavelmente desesperado.
Quebrei o relógio do meu quarto. Os minutos não mais me aprisionam na cama de um tempo frio que resiste a passar só para afrontar a minha urgência por um dias mais razoáveis que os possíveis.

13 outubro 2011

Aos poucos a gente se dá conta de que correr demais sem saber ao certo aonde se quer chegar é puro desespero.

10 outubro 2011

Sempre esquecendo. Um sorriso. Um abraço. O cheiro de uva molhada de suor. Alguém.  Uma dança. Um lugar. Outro alguém. A saudade. A vontade. A esperança que se acaba também. E corre o tempo. E o céu clareia. Cada dia a mais é um dia para esquecer.

08 outubro 2011

Primeira casa

Eu queria explicar, mas nem sei por que palavras. Bem que eu poderia escolher as melhores e ninguém que lesse ia dizer que não entendeu. Eu mesma me convenceria de que não passou de uma mentira, entre todos os enganos que pontuam a minha história. Mas quando eu percebi não dava mais. Não deu tempo de andar de bicicleta. Nem de bater uma foto. E tudo o que fazia sentido parece tolice. Quer saber? Eu culpo a lua. A lua que está na primeira casa do meu mapa astral. Que faz de tickets de estacionamento barquinhos de papel, que ofusca os caminhos por onde andei e que agora não me deixa seguir sem dar uns bons passos pra trás.

06 outubro 2011

O arco-íris que a lua escondia

Passei batom, rímel e decorei o all star branco com gotas de esmalte vermelho ventania.
Peguei carona no balão que pegou fogo na frente da casa que você construía.
Queimei os olhos com faísca que respingou chuva e carbonizou fantasia.
Esperei deitada sem saber se podia dizer bom dia.
Segui seus passos apressados por carne mal passada e pitadas de melancolia.
Colori com canetinha roxa o prato em que você comia.
Fiz salada de macarrão, chocolate e ironia.
Bebi água da sarjeta enquanto você dormia.
Levei uma mordida do cachorro que me lambia.
Encontrei a lâmpada mágica no final do arco-íris que a lua escondia.
Fiz um desejo em voz alta de aflição que me sucumbia:
um brinde a bondade que toda a noite em mim morria.

04 outubro 2011

Um corpo

Ao abrir a porta viu seu corpo caído no tapete e seus olhos abertos fixando algum ponto que não podia identificar. Não foi preciso chegar perto. Nem sentir a (falta de) respiração. Era ele. Completamente imóvel. Alheio ao que quer que fosse. Talvez sua alma ainda rondasse a sala. Talvez visse quando ela entrou, deixou a bolsa no cabideiro, tirou os sapatos, não se desesperou. Não houve lágrima ou qualquer outro lampejo de tristeza. Nem mesmo espanto. De todos os momentos que viveram juntos, essa seria sua melhor recordação. Com serenidade e sarcasmo, aproximou-se do corpo, escorregou a mão pela testa fria e rígida e disse, suavemente, em seu ouvido: Agora você me devolveu a paz. E fechou seus olhos.

03 outubro 2011

Entre a ideia equivocada da felicidade o desperdício da dor acaba sempre escolhendo a segunda opção. Talvez por vocação. Talvez por costume.  

30 setembro 2011

Mais uma vez a memória escolhendo os momentos mais importunos para mostrar que está falhando. Que se não tratar piora. E eu pergunto: que diferença faz agora, se não há mais para  lembrar do que tenho pra esquecer?

28 setembro 2011

Hoje eu encarei o espelho e confessei diante de mim que ando lendo pouco. E fiz isso em voz alta pra alfinetar a minha reação. Não que esperava espanto ou indignação. Só não contava com o descaso. Era eu, de verdade, enxergando que preciso olhar mais pra mim.

27 setembro 2011

A vida dos outros

Eu sei que às terças-feiras o Marcos vai para o Espetiscos. Que gosta de comer queijo coalho tomando coca-cola. Que carne seca só desce com chope. Hoje o Marcos não vai tomar chope. Ele tá fazendo tratamento com antibiótico. Eu não sei o que o Marcos tem. Tomara que não seja grave. Coitado. Não vai beber bem hoje que terminou com a namorada. Ou foi a namorada que terminou com ele? Isso eu não tenho como saber. Só que ele está solteiro. Alguns amigos dele gostaram. Outros lamentaram. Teve uma moça que se mostrou muito solidária. Eu acho que ela é a fim do Marcos. O namoro dele durou cinco anos e eu acompanhei os últimos dois. É muito bonita a (ex) namorada dele. Vanessa. Eu gostava de ver as fotos do Marcos e da Vanessa. Ela sempre usava um cabelo diferente. Em Paris, loira tipo atriz de cinema. Em Ubatuba, o castanho escuro cobria as madeixas três palmos menores. Das últimas fotos, castanho claro com luzes acobreadas combinando com o vestido que usou no casamento do irmão do meio do Marcos. Eu achei que o Marcos ia se casar com a Vanessa. Ele era louco por ela. Fazia declarações, mandava flores, presentes. Um dia ele a surpreendeu com uma chuva de pétalas de rosas quando ela saía do trabalho. Eu achei meio brega. A Vanessa também não gostou muito, mas ela foi educada. Disse que ficou um pouco sem graça porque estava na frente do chefe, mas que foi uma surpresa bonita. Simpática a Vanessa. Ela sabia lidar com os exageros do Marcos. No fundo, ele é gente muito boa. Só briga quando fala de futebol. O Marcos gosta de zoar com os amigos quando o time deles perde. O que eu acho mais engraçado é que o Marcos gosta mais de irritar os outros do que comemorar quando o time dele ganha. Eu conheci o Marcos na praça de alimentação do Shopping Center perto da minha casa, há dois anos. Eu carregava a bandeja do lanche, batatas fritas e refrigerante quando avistei uma mesa vaga. Acelerei o passo e a bolsa escorregou do ombro. A bandeja balançou e o copo caiu. O Marcos passava perto. Ele foi tão rápido que fiquei com metade da coca-cola. O Marcos disse que como agradecimento eu tinha que convidá-lo a se sentar comigo. Não foi uma cantada. Ele também procurava uma mesa para almoçar. No final da conversa, ele perguntou o meu nome. No dia seguinte, pediu minha amizade no facebook. Nunca se sabe quando vamos precisar de ajuda com o refrigerante. Foi a última vez que eu falei com o Marcos.
Ah.. essa curiosidade ainda me ataca o fígado.

26 setembro 2011

Silêncio desconfortante

Vez por outra interrompe o pensamento uma lembrança tão feroz que é capaz de reproduzir não apenas as palavras, mas o sincronismo delas com as expressões. É tarde. O desconforto no olhar. Não é fácil. A pausa entrecortada por uma respiração mais brusca e menos corajosa. Desencontro. A serenidade em busca de um termo mais elegante que o óbvio. Ainda não acabou. O silêncio tentando convencer a razão. Não acabou. O silêncio.

24 setembro 2011

Emagreci dois quilos de sonhos impossíveis e sigo na dieta para eliminar desejos incontroláveis e devastadores.

22 setembro 2011

Espera

Brilha descaradamente o sol nessa manhã de inverno. Dá para sentir pela janela do quarto. É Claridade sem fervor. Não arde o corpo. Nem a alma. Nem mesmo o sorriso esboçado de uma lembrança boa, que se perde na fome do meio dia e os 28 minutos de uma espera sem fim.

18 setembro 2011

Completamente vazia de emoções e sentimentos, com exceção do desespero que me acompanha; ora me consolando, ora me envenenando.
Tá mais fácil conviver com os outros do que comigo mesma. Alguém sabe como se tira férias de si?

19 julho 2011

Seguem os mesmos passos atrasados. Seguem por um caminho de terra fresca, úmida da garoa fina que vai e volta. Seguem descalços, perdidos em curvas, ladeiras e anseios. Seguem sem pressa, sem vontade de parar, alternando em pegadas sabores de angústia, saudade e tristeza.

05 julho 2011

Dançamix

Com esse que eu vou
Sambar até cair no chão

Arrastar a sandália
Arrastar até gastar
Sacudindo bem

Nesse sambalanço
Eu só não te convido pra dançar
porque a vida é sempre aquela dança
Onde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa

Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão

E além do mais
Eu não sei dançar
Tão devagar
Pra te acompanhar

Mas já que eu não posso te levar
Quero que você me leve

Porque essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor
E do lado de cá
O meu corpo dança sem parar
Com o seu vai e vem

Então
Vamos dançar
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo o que viver

É Com Esse Que Eu Vou/ Balança Pema/ Quatro Paredes/ Umas e Outras/ Dança da Solidão/Não sei dançar/ Vida Louca Vida/ A Festa / Do lado de cá/Um Certo Alguém

06 abril 2011

Um dia eu escrevo sobre tudo o que me apavora. Mas hoje eu só quero por os óculos escuros e fingir que não notei que a cidade amanheceu ainda mais cinza do que o que eu tinha na lembrança.

04 abril 2011

Aceitar a ponto de não esperar.
Não esperar a ponto de acostumar.
Acostumar a ponto de não lembrar.

01 abril 2011

Sorriu. Aquele sorriso largo, espaçoso e demorado que costumava lançar quando fazia uma longa pausa. Talvez achasse mais instigante o movimentar dos músculos do que a rigidez do silêncio. Ou seria essa apenas uma tática inconsciente que usava para formular o seu próximo pensamento antes que este lhe saísse sem perceber.Ou quem sabe fosse apenas seu modo de dizer: estou te ouvindo.

01 fevereiro 2011

Texto para Gisele Crepaldi

Dias de sol não agradam. Pressão cai, preguiça contamina. Vontade de não fazer nada. Tinha de ser inventado restaurante que oferecesse a sesta. Rede ao lado da mesa deveria ser serviço básico. Escova. Estica e puxa e o suor redobra o trabalho. Ainda se muda para Moscou. E se da primavera pulássemos para o outono? Melhor não corrermos o risco de perder a simpatia das aquarianas. Vale enfrentar os 35 graus. Tem compromisso. Não. Soa obrigação. Tem é salsa. “Soñe... contigo soñe”! Dança comigo? Só se depois tiver pizza. Criação dela: sorvete, chantily e M&M´s. Tem até nome. Delluchetti. E não é que a combinação poderia dar em roupa de passarela. E Lembra infância. Ah a vida vinha embrulhada numa bola de sabão. Andar de bicicleta era diversão, não exercício para a perna. A perna dói. A sola do pé formiga. O Nextel toca. Mais uma? Pode ser a próxima? A pista está cheia. E dia seguinte acorda cedo. Vai descer a correnteza e sentir que a vida ainda pode caber dentro da bola de sabão. E vai se lembrar que a Tiffany é logo ali. Quem sabe amanhã não seja ela a bonequinha de luxo. Sua casa é o palco. Alguém disse que não há lugar melhor do que a nossa casa. Mas e se la não for desse mundo? Seria de Marte, Júpiter ou Saturno? De onde for, não está sozinha. Hoje, sonho. Amanhã, aplausos. E a pedreira já não assusta mais. O desafio pede concentração. É difícil. Como é difícil! E se o caminho que escolheu não for o certo? Quem pode saber se a vida é assim: um dia aventura, outro, obrigação. Uma noite, lua cheia. Outra, sem estrela. Ela sabe que consegue. Já provou que pode. E pensa que se perder é chance de encontrar caminho novo. E lava a alma!!!