E o primeiro dia chegou chuvoso como tantos outros que eu levo na lembrança. E como em tantos outros aceitei o convite e me deixei molhar. Chuva de ano novo purifica a alma. Como dizem. Traz sorte. Dizem. Mas eu nunca levei muita fé nessas crendices, embora fizesse questão de fazer tudo o que é simpatia de réveillon. Já comi lentilhas, chupei sementes de romã, pulei as sete ondas, num pé só, despetalei rosas, fiz barca. Vesti branco, verde, vermelho, amarelo. Cada ano uma cor e num ano todas elas. Também já vesti preto num réveillon de muita revolta. Guardei dólar na carteira, tomei banho de champanhe, de sal grosso, imergi na água com arruda. Ri, chorei, soltei fogos, brindei. Esse ano troquei as simpatias por uma oração e um bom banho de chuva. Não pedi nada de especial porque cansei de anos novos no calendário, nas folhas do meu cheque e nas marcas do meu rosto. Sorte? Já não sei ao certo o que isso significa de verdade. Não que eu não tenha, só, muitas vezes, não a tenho reconhecido de muito perto. Acho que para esse ano sorte será ler os sinais que a vida tem me dado, antes que eles se percam por aí.

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