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03 fevereiro 2012

O novo funcionário do financeiro

Do outro lado da lona branca, meio translúcida, a Santo Amaro aparecia tomada por rastros de luzes em movimento, dos carros apressados para a sexta-feira. De lá pra cá, a travessa escondida da avenida exibia-se mais animada que de costume, com long necks à boca e corpos em movimento. A música abafando o som das buzinas irritadas da sexta era quase um convite a quem passasse mais atencioso pela calçada, não fosse a barreira da lona, fechando a rua sem saída. Do meu lado, rostos ainda pouco conhecidos dos primeiros dias de trabalho. Por esse motivo, não estranhei nunca ter visto o novo funcionário do financeiro. Também não desconfiei que ninguém ali o conhecesse pelo simples fato de que ele não existia. A invenção eu fui saber mais tarde, pelo próprio. Depois de alguns minutos de conversa, veio a confissão. Já tinha ouvido muito falar do tipo, soube de histórias, vi em filmes. Assim de perto foi a primeira vez. Uma conversa na portaria, a escolha de um nome que existia ali e a chance de entrar. O segurança se encarregou de complementar, sem que se desse conta, a história inventada. A passagem se abriu para o rapaz que então esperava a moça do figurino, de quem nunca tinha ouvido falar. Aliás, ele sequer imaginava de que ramo era a empresa que dava a festa, mas a fachada modernosa e elegante e o paredão grafitado já chamavam há algum tempo a atenção do estudante de arquitetura com interesse especial por design gráfico. Trabalhava ali perto. Moço falante e simpático, de sorriso fácil, de amizade rápida. O tipo físico, piercing, cabelo bagunçado, roupa esportiva, não combinava com a seriedade da função imposta, mas o cargo a ele atribuído pelos meninos do roteiro, de quem fez amizade logo na entrada, acabou pegando. Gente boa, esse pessoal. E era mesmo. Eu também notei rápido. A quem se aproximava, ia ele sendo apresentado por seus anfitriões. Esse é o novo funcionário do financeiro. Até que recebeu da diretora o aval para ser membro da equipe. Do roteiro tinha mais jeito. Gostava de histórias. De ouvi-las e, principalmente, de contá-las. Certamente essa será mais uma. Aos amigos, ou, quem sabe, aos desconhecidos de outras comemorações, não perderá a chance de contar sobre a noite em que descolou uma festa, uma carona, um cargo fictício, boas conversas, longas risadas. E se o rapaz é mesmo adepto de invencionices, quem sabe também não espalhe que acabou saindo de lá com a tal moça do figurino. Se a história pegar, ano que vem, talvez não passe o penetra de mais um convidado.

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