Que ainda ontem as lembranças não chegavam. E o sorvete de
coco tinha mais sabor da fruta que da saudade. O pôr do sol moldava os rostos
que eu não conhecia e o vento liberava todos os medos que eu fingia. Que ainda
ontem as risadas não doíam. E os passos seguiam mais a intuição que a vontade. O
suor molhava os sonhos que eu teria e a areia escondia as dúvidas que eu distraía.
Que ainda ontem o cansaço não incomodava. E a maresia tinha mais toque de leveza
do que intimidade. As redes pescavam os
gritos que não eu não daria e o céu brilhava as vozes que eu mentia. Que ainda
ontem as memórias não ousavam. E o mar balançava mais emoção do que naturalidade.
As bolhas de sabão embrulhavam os sons que eu não sabia e os pássaros cantavam
as lágrimas que eu perdia. Que ainda ontem o sono não escapava. E as ondas lavavam mais ilusão do que sensibilidade.
A brisa afogava as certezas que me perseguiam e o cachorro lambia as dores que
eu escondia. Que ainda ontem o coração não falhava.