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17 março 2009

Vai um amendoim aí?

Já foi mais paciente, mas agora por pouco sai de si. Treinou no espelho que forma daria à frase: não perturbe! Mas nem todos conseguem decifrar sua expressão, principalmente vendedor em lugar errado. Quantas vezes vai ter que abrir o vidro pra falar que não quer a fruta da estação, o fone para o celular ou o carregor da bateria? Ou vai precisar dizer que não está interessada em queijo quali, canga e tatuagem de hena? Vai um amendoim aí? Vai você... deixa para lá. Pior é quando ligam para sua casa. Uma voz animada diz que por causa do seu ótimo relacionamento com o banco, tem direito a mais crédito, mais limite, mais facilidade. Semana passada, recebeu quinze ligações da telefônica. Queriam que assinasse o speed. Outro dia viu uma blusinha na vitrine e entrou para experimentar. Não ficou boa. Agradeceu à moça e já ia saindo da loja quando a vendedora disse: Você veio aqui para ver blusas então vai ver blusas. Desse jeito mesmo. Ela a ameaçou. E quando o vendedor fica batendo no provador de minuto em minuto perguntando se a calça está ficando boa. Se ao menos ele desse tempo de saber se gostou. Não "convencido" da recusa, quer ver ele mesmo como ficou. É incrível como qualquer coisa fica bem porque combina com a cor da pele, porque deixa mais magra, porque deixa mais alta, porque deixa mais elegante... É por essas e outras que dança.

16 março 2009

Palavras

...nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só pelo bem que soam juntas, assim muitas vezes se sacrificando o respeito à leviandade, a ética à estética, se cabem num discurso como este tão solanes conceitos, e ainda por cima sem proveito para ninguém. Por essas e outras é que, quase sem darmos por isso, vamos arranjando tantos inimigos na vida.
(A Viagem do Elefante, José Saramago)