São distorções,
borrões, rascunhos. Numa tigela não muito funda, um pouco do que sou se mistura
agora com o que eu teria sido e com o que ficou perdido em um tempo que eu não
lembro mais. Um pouco também do vi e do que ouvi. Em vozes que eu já não
reconheço. Histórias que eu queria contar como minhas. Porque tudo parece mais
claro de fora. Mais limpo. A dificuldade que sinto de enxergar de muito perto
me leva a lugares que sempre desprezei. E uma vez neles, não sobram muitas saídas.
Talvez um mergulho nas profundezas de mim seja a questão. Ou a ilusão que resta
para libertar tudo aquilo que eu não controlo mais. É difícil saber ao certo o
que encontrar em caminhos tortuosos, moldados com lama, dúvida e fantasia e decorados
por uma devastação intensa que beira a loucura. Mais difícil é precisar percorrê-los um dia para saber como termina a história que um
dia foi minha.