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02 março 2012

Flores de Abril



Não é saudade. É só a lembrança se deixando convidar por sensações encaixotadas pela prudência. Às vezes, no toque de uma dança, nos pingos fortes da chuva, no sorriso de um desconhecido, no cheiro que me invade por alguns segundos e se vai quando a porta abre e o elevador esvazia no andar seguinte. Sentidos que acendem sua presença ainda ativa, mas escondida em algum canto reminiscente da alma.  E por alguns instantes, o pensamento se desvia das ações do momento e esbarra nos toques firmes e vigorosos das mãos, das vezes que a gente debochava do despertador aos berros e fazia hora extra na cama ou afastava a atenção da tela e a metia entre as pernas entrelaçadas no cinema. De quando a gente ria ensopado, tentando apertar um lugar debaixo do guarda-chuva. E as bobagens sussurradas entre taças de vinho tinto e músicas de vitrola. E o ardor do incenso queimando a sala. Das lembranças de um outono que despejava flores de abril na janela do meu quarto e ventava cenários de recomeço, não guardo a tristeza disfarçada de melancolia e nem me oponho à saudade. Mas não evito mais as memórias protegendo da vida as sobras de tempos que se perderam. Que agora fragmentam o meu dia e deságuam a minha noite.  E, quando me tomarem de novo, é provável que um sorriso tímido se forme e talvez algumas lágrimas floresçam, mais por costume do que por qualquer outra coisa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito legal seu blog! Vc escreve muito bem.