E então chegou a hora da faxina. Do descarte. Da limpeza profunda. Entre presentes, flores e fotografias, eu escolho minha vida de volta, a de antes, a dos sonhos e das danças. Eu escolho a felicidade tímida e constante em vez dos rompantes de risos e estampas de alegria que me falsificam. Chegou a hora do desentulhar, desencavar e guardar somente aquilo que não me aborrece. Eu já cutuquei a ferida e agora a espero fechar, sem pressa, sem intervenções. Em seu tempo, não mais no meu, porque eu já sei como acaba. E dessa vez as folhas secas do outono não me recolhem. Mas é o inverno mais frio que o de costume que me desencoraja. Eu atravesso tempos inquietos. De dúvidas, de questionamentos, de respostas que não mais me convencem, mas acabam servindo. Talvez por preguiça. Talvez por descrédito. Se não fosse esse inverno mais longo que o de costume, eu sei que eu já teria florido mais rápido. E já seria mar em fim de tarde. A vida dá voltas e a amanha pode ser a minha vez.
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