Ainda com a lembrança das pernas bem torneadas que ela exibia por baixo de uma minissaia e dos volumosos seios que, se não tinham sido feitos numa sala de cirurgia, certamente seriam herança da uma família de matronas, ele abriu o orkut. Procurou pelo nome dela e encontrou três Júlias Bak. A que lhe interessava era a mais discreta da lista. No lugar da foto, um desenho. Estranhou que alguém tão bonita preferisse usar uma animação e chegou a pensar que talvez ela fosse mais discreta do que supunha, mas essa impressão se desfez assim que ele entrou no perfil dela. Nas fotos do álbum, com privacidade zero, ela aparecia com menos roupa do que as que ele tinha na lembrança e, mesmo chamando a sua atenção, elas não conseguiram fazer com ele desistisse do alvo de sua pesquisa. Abriu uma lata de cerveja e passou o mouse na lista de comunidades. Espantou-se ao ver a quantidade que ela tinha: 374. Mas o número não o desanimou e ele se dispôs a examinar, pacientemente, cada um delas. Passou os olhos nas “Eu adoro bolsa cara”, “Eu tenho medo da ‘véia’ quacker”, “Eu vou ao cinema sozinho”, “Eu bebo e ligo para as pessoas”, achou graça da que dizia “Eu gosto de homens de roupa preta”. Meu Deus, quanta bobagem! Clicou na página seguinte e assim que ela se abriu, ele fixou os olhos na primeira comunidade: “Vá fumar na PQP”. Vamos ter problemas, previu, lembrando de sua ex. Mais adiante, outra comunidade atraiu a sua atenção. “Eu só add gatos”. Apesar de ser bem apresentável, ele não era exatamente o que se poderia chamar de gato e, talvez por insegurança, tenha repensado a roupa com a qual pretendia encontrar-se com ela de noite. De repente uma camiseta descolada, e da cor preta, conferisse um ar mais simpático que a camisa de colarinho branca que ele tinha mandado lavar. Mas logo se esqueceu da roupa para distrair-se com outra comunidade. “Sem carro, sem chance!”. Mas que Maria Gasolina! Mais adiante. “Comigo só casando”. Ah, vai esperando sentada. Eu conheço esse tipo. Um dia, elas levam uma roupa para dormir na sua casa, no outro já estão mudando a cor da sua parede. Não, casamento comigo nunca mais. Acendeu um cigarro, tomou outro gole de cerveja e foi para a página seguinte. “Quem nunca traiu?!” Ah, claro e quando você descobre, já estão se mudando para a casa do vizinho bonitão da frente, enquanto o seu cartão de crédito estoura por causa do vestido que você, trouxa, comprou para comemorar o terceiro ano de casamento. E nesse momento ouviu a música que um dia dedicou à ex-mulher tocar em seu ceular. Exaltado pelas lembranças, pegou o aparelho, viu no identificador de chamadas Júlia Bak e atendeu com impaciência. A moça, sem notar a sua irritação, sorriu e perguntou a que horas ele a pegaria em casa.
Pegar? Eu? Peça para um dos seus gatos ir te pegar, porque se você pensa que eu vou ser trouxa de sair com alguém que só quer saber da marca do meu carro e da bolsa cara que vai ganhar, você está muito enganada. Eu não vou me casar com uma interesseira como você que vai me botar um chifre com o primeiro que aparecer. E tem outra coisa, não pense que vai me fazer lagar os dois maços de cigarros que eu fumo por dia por aqueles chicletinhos vagabundos. É bom que você saiba que nunca mais uma mulher vai me fazer sair da minha própria casa pra fumar, ouviu bem, nunca mais, a casa é minha, porra! E quer saber do que mais? Vá você para a puta que te pariu, ingrata!