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06 março 2009

Os dias são iguais

Acorda depressiva e não sente vontade de sair da cama. Espera o terceiro toque do despertador para levantar. Sente fome, mas não pode engolir o café. Passa água na cara e maquiagem pra disfarçar o inchaço das pálpebras. Só volta a sorrir de tardezinha, quando as moças do escritório se reúnem na cozinha para o café. É nessa hora que se distrai com as histórias que ouve. Algumas são bem engraçadas. Outras, pura invenção de quem provavelmente não tem nada pra contar. As que mais gosta são as tristes, melhor ainda se forem mais tristes que a sua. Nessa hora, pensa que deveria ser mais alegre e consegue colocar um pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate na boca e sentir gosto. De noite é pior. Deita na cama com leveza, cobre-se, apaga a luz do abajur e não consegue pegar no sono. Toma uma, duas pílulas. Volta a pensar em sua vida e esquece as histórias tristes que ouviu de tarde. Só pensa que poderia de ter feito mais e não fez. E adormece de cansaço.

04 março 2009

A partir de hoje não escrevo mais...

A minha inspiração se foi. Nem avisou que ia. Simplesmente não apareceu mais. Pode ser que alguma coisa tenha acontecido. Coisa grave, talvez. Pode ter sido atropelada, ter levado uma bala perdida, ter batido com a cabeça na calçada...ter morrido. Não, não morreu. Dizem que notícia ruim chega rápido. Não chegou nenhuma, nem boa nem ruim. Nada. E eu... bom... eu não posso mais escrever. Vou esperar minha inspiração voltar. Assim então volto a escrever. Ou quem sabe escreva antes disso. Quem sabe não seja a hora de trocar de inspiração...

01 março 2009

Rotina

Hoje eu não quero saber da vizinha que fugiu com o mecânico porque estava cansada de sustentar o marido bêbado. Do carro que quebrou a cinco quarteirões e teve de ser empurrado porque o dono não teve dinheiro para o guincho. Não me interessa o cachorro que pegou sarna e foi sacrificado pra não passar doença para o bebê. Nem as frutas que apodreceram porque a chuva não deixou ter feira. Não quero saber da mulher que chorou para o encanador não cortar a água, do apresentador da TV que teve um ataque cardíaco ao vivo e conseguiu a audiência que nunca teve em vida e da fábrica que demitiu metade dos funcionários para sobreviver à crise. Não fale do pai que matou o filho para não pagar a pensão, da mulher que simulou a morte para dar golpe na seguradora e do gato que mesmo de barriga cheia abocanhou o passarinho que tomava água no bebedouro do jardim. Não quero ver o beijo da atriz famosa no amante nem a entrevista do traficante que culpa a pobreza pela falta de chance. Não quero ouvir falar do garoto que riu do tombo da velhinha, do amante que não recebeu transplante do coração da mulher porque o marido não deixou e da moça que saiu de casa e nunca mais foi vista. Hoje eu não quero rotina.