Calculava umas quinze pessoas a sua frente e, apesar de não se incomodar com filas maiores, pensou em desistir. Tenho compromisso para logo mais, diria, se alguém perguntasse, mas não foi preciso. Ficou. Enquanto esperava sua vez, ouvia os comentários da fila e protestava para si mesmo: tudo um bando de puxa-sacos. Terei de ser eu a dizer-lhe a verdade. Na metade da fila, pôde ter uma visão parcial dela. Sentada atrás de uma mesa, ela agradecia ao visitante que comprou três de suas publicações. Coitado, se não foi para agradar, certamente nunca provou uma de suas receitas. Quando descobrir vai ser tarde. Pior se antes tiver presenteado alguém com um dos livros. Sua hora ia se aproximando e ele foi ficando cada vez mais impaciente, olhava para o relógio, para os lados, voltava a prestar atenção nos comentários da fila e pensava no que iria dizer quando ela perguntasse o que achou. Péssimo, claro, quando você vai descobrir que não tem talento? Agora havia três pessoas a sua frente e ele teve uma visão mais nítida da autora. Com o pé descalço, ela acariciava o tapete felpudo. Com o outro, que ainda mantinha em cima de um salto agulha, batia sem parar no chão. Compreensivo, pensou. Até para renomados, noites de autógrafos devem causar calafrios. Mas as mãos não demonstravam nervosismo. E foi com firmeza que ela pegou um livro de sua pilha, fez uma curta dedicatória e disse sorrindo. Que surpresa, não esperava você aqui. Boa? Certamente! Então, o que achou? Não sei se sou a pessoa mais indicada para... Pode me dizer, você não gostou? Pelo contrário, é o seu melhor.