10 janeiro 2012
Muito obrigada
Depois de um dia em que muita coisa deu errado, dois emails na minha caixa de entrada encerram melhor essa noite. É bom ler palavras de amigos queridos e me saber querida por eles também. Não são muitos os amigos que tenho. Alguns não tão presentes quanto eu queria. E nenhum condecendente. Eu tenho amigos que, mesmo distantes, cuidaram de mim quando tive o corpo saudável e a alma doente. Brigaram comigo quando, perdida em delírios e diminuída por depressões, não tive coragem de subir os degraus que derrapei por descrença. Amigos que, muitas vezes, com palavras sábias e intenções legítimas, não conseguiram abrandar as minhas mágoas, mas ouviram o meu choro até a exaustão física. Amigos que bateram o telefone na minha cara, irritados com a minha apatia. Que retornaram me dando mais uma chance e quantas outras eu precisei. Amigos que entenderam a minha necessidade de afastamento e torceram por mim quando tive de me isolar de tudo. Todos deveriam ter amigos como os meus. Por isso hoje vou seguir o conselho que um deles não cansa de me dar, mas que eu, embora ouça com atenção e concorde com convicção, não tenho tido a decência de praticar: o agradecimento. Hoje eu quero agradecer aos amigos que Deus colocou em minha vida. Muito obrigada.
09 janeiro 2012
Desamor
E esse dia finamente chegou. De todas as vezes que imaginou quando como seria atender ao telefone sem pensar em quem estaria por trás da linha. De como seria tirá-lo do gancho simplesmente, num gesto tão corriqueiro e trivial como escovar os dentes ou lavar os olhos. Levar o fone à boca, sem expectativas, receios, angústias. Sem aquela palpitação que fazia a voz de Emília fraquejar no momento do alô e o peito dela se encher de ansiedade até ouvir a voz do outro lado da linha, que a certificava do que era óbvio demais para aceitar: não se tratava de Pedro. Seria ingenuidade acreditar que, do outro lado, pudesse mesmo estar Pedro. Como se Pedro ainda lembrasse seu número. Depois de tanto tempo, de tantos enganos e desencontros, dissabores e desamores. O mais provável é que Pedro nem lembrasse mais o seu rosto. Mas como é traiçoeira a esperança de Emília. Dribla todo o sentido da razão e faz da sua própria razão a versão mais sensata. Quem pode culpar Emília de ter esperança. Por que não poderia ser Pedro? E se Pedro, mesmo depois de tanto tempo, sentisse saudade, só não tivesse coragem de ligar? Nem todo o homem tem coragem de ligar depois de tanto tempo, talvez nem mesmo Pedro. Nem toda a mulher aceitaria essa ligação depois de tanto tempo, talvez nem mesmo Emília. Não era Pedro ligando. E, pela primeira vez em anos, Emília ouviu o telefone tocar e correu para atender sem querer que fosse Pedro. Sem lembrar de Pedro. E conversou, desligou, fez a janta, viu um filme, leu dois capítulos de um livro e nada de Pedro. Nem quando deu ração ao Bernardo, o gato que Pedro nunca mais voltou para buscar. Mas antes de dormir Pedro voltou. Sorrindo como sempre. Pedro fez falta no pensamento de Emília. E ela ficou com medo de não precisar mais de Pedro. Emília agora vai ter que se ocupar de algo novo antes que Pedro suma de vez. E isso a assusta, mas hoje, pela primeira vez, em muitos anos, ela quer viver, de verdade, sem Pedro.
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