Sentia falta de falar. Não só de escrever. De ouvir
as palavras saírem da boca sem pensar antes no que dizer. Sem intencionar cada
letra, vírgula e ponto às regras. Sem sinônimos para as repetições. Sem
norma. Priorizar o improviso à estética. Falar como saísse, como viesse. Frases
incompletas, incorretas, insensatas. Talvez acreditando que a rapidez do
raciocínio esclarecesse sentidos menos nobres e mais inteiros. Fechando, às
vezes, lacunas de verdades e, outras vezes, abrindo frestas de transparência. Deixando à mostra a dor, a raiva, a imperfeição, a calma, a alma, a adoração, a
vontade, a saudade, a beleza, a dúvida, a leveza. Falar por falar, por querer,
por saber. Falar e ser ouvida. Sem obrigações, nem regras, nem normas, nem
imposições. Falar e ouvir. E falar mais. E falar até ouvir.