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28 janeiro 2012

Emília falou comigo

Há poucos semanas, ouvi uma conversa sobre a necessidade de deixar que o personagem fale com seu autor. Tratava-se de uma conversa entre pessoas que escrevem ficção. Eu, como jornalista, sempre ouço o personagem falar. Quando o questiono. E o personagem fala sempre algo real. Claro. Ainda sinto dificuldade em escutar os personagens que eu crio. Numa madrugada dessas, porém, ouvi com tanta clareza que me espantei. Emília, a personagem, não me deixou dormir naquela noite. E eu tentei, mas ela falava, gritava, às vezes. Cansada de me revirar na cama, pedi trégua. Ok, Emília, anoto as suas ideias e volto a dormir. Emília não se contentou. Voltou a me acordar e pediu para que eu digitasse também as suas falas. O resultado é que criei a minha primeira peça. Boa, ruim, razoável? Não tenho parâmetro para responder. Mas a única pessoa para quem eu mostrei até agora (que, por sinal, dará forma à Emília, se um dia a peça for encenada) gostou. E eu gostei da experiência. Que mais personagens falem comigo. Que eu lhes dê ouvidos.

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