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30 novembro 2008

Minha noite com José Saramago


Cinco minutos depois de aberta a bilheteria do Sesc para a distribuição gratuita dos ingressos para o lançamento mundial de A viagem do Elefante, de José Saramago, os convites haviam se esgotado. Essas mesmas pessoas que se apressaram em garantir o seu não desistiram de aguardar na fila por um autógrafo, mesmo que o pessoal da organização tivesse garantido que, por recomendações médicas, o autor autografaria apenas um número limitado de livros e que esse número não chegaria a tanto. Eu também não desisti. Saí de lá sem o meu autógrafo, mas igualmente feliz, como os que exibiam, orgulhosos, a assinatura do autor. Como disse um amigo meu, um autógrafo é mais um capricho, para mostrar aos outros. O que valeu, de verdade, foi ter vivido um desses momentos únicos, como presenciar a emoção de Saramago ao ser ovacionado, por duas vezes, pela platéia. A seguir algumas passagens marcantes da palestra.

“Se tivesse morrido antes de conhecer a Pilar, teria morrido mais velho do que sou hoje”. A platéia interrompeu o discurso do escritor com fortes aplausos de emoção. Ela estava assistindo. Pouco antes, subiu ao palco para ler uma carta que havia escrito quando Saramago terminou A Viagem do Elefante, coisa que chegou a duvidar que presenciaria, por causa da grave doença do marido. Uma mulher simpática, mais jovem e bem-humorada do que eu supunha. Na dedicatória do livro, Saramago escreveu: “A Pilar, que não deixou que eu morresse”. Ele credita a sua cura, inexplicável, à eficiência da medicina, à competência dos médicos e, sobretudo, a Pilar.

A idéia para a Viagem do Elefante surgiu quando Saramago visitou um restaurante na Áustria e soube da história de um elefante que foi levado de Lisboa ao País para ser dado de presente ao arquiduque Maximiliano II. Ele havia escrito 40 páginas, mas precisou interromper o trabalho para o tratamento da doença. Retomou o projeto meses depois e como diz o autor, escrever é uma caixinha de surpresas. “Temos uma idéia, mas o livro se faz, fazendo. É preciso sensibilidade para saber aonde o livro quer chegar. Neste caso, ele quis ser alegre, quando eu tive uma experiência quase trágica e eu deixei”.

“Só o que quero é tempo e vida”. Foi a resposta que Saramago deu a um jornalista de Portugal que perguntou o que mais faltava para ele.

Sobre os mais de 20 anos que ficou sem publicar nada, o autor disse, com a consciência que talvez antes não tivesse, que: “Não tinha nada a dizer que valesse a pena”. Acrescentou também que nunca escreveu um mau livro.

No encerramento, Saramago voltou a fazer a platéia se emocionar. “Escrever é uma responsabilidade enorme, quando se tem leitores e quando esses leitores se multiplicam. Quando se tem um olhar tão crítico quanto o meu. E quando vejo a reação do leitor, tenho vontade de dizer que estou com minha gente. E eu repito isso diante de vocês que sorriram e riram comigo essa noite, que eu estou com a minha gente”.

2 comentários:

Anônimo disse...

Saramago é incrível. Sempre me emociono com as coisas que ele fala e escreve.

Unknown disse...

Eu queria estar lá.
Teria chorado...
Beijos,